Terça-feira, Novembro 17, 2009

Família ê, família ah

Minha família é do caraaalho!!! Cada vez me impressiono mais com a capacidade dela me surpreender nas coisas mais pequeninas do nosso cotidiano e naquelas que demandam um esforço espiritual bem mais intenso. Adoro a maneira de fazer as pazes e transformar tudo em uma grande brincadeira de domingo à tarde, ou de rirmos daquilo que outrora foi a coisa mais trágica de nossas vidas. Acho que até por termos passado por situações muito sofridas e termos carregado o ímpeto da mudança como algo até que, de certa maneira, positivo, hoje vivemos um amor muito grande. E eu agradeço muito a essa mulherada... por me fazer feliz.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Guerra e Paz

Bandeira de Guerra
(Paulo Vanzolini - Acerto de Contas - disco 1)


Foi numa esquina da vida
Uma mulher em hora perdida
Um homem em ponto morto
Nessa base do tropeço e mau começo
Foi nascer contra a vontade esse amor torto
Me admira ter vingado, quem diria
Que fosse loucura pra mais do que um dia
Na verdade quem diria
Que enxergasse a luz do dia
Mas vingou e é coisa feita
Torto sim eu ostento
E ninguém me endireita
Mulher, já que Deus quer vamos em frente
Minha bandeira de guerra
Meu pé de briga na terra
Meu direito de ser gente

Minha bandeira de guerra
Meu pé de briga na terra
Meu direito de ser gente


Para baixar, com o Paulinho da Viola como intérprete.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Chacoalhão

Fumar um maço de cigarros, sentir a chuva na pele e o arrepio do frio molhado, ler textos lindos sobre o amor, nada me tira essa ansiedade que não consigo explicar. É como se o que vivo pudesse mudar de rumo como o vôo da borboleta, num pequeno instante, conforme a virada dos ventos. Ou como se tudo estivesse suspenso no ar, como a grama cortada que baila ao sabor da brisa quente e, quando retorna ao chão, deixa um cheiro bom daquilo que não existe mais.

O que será de todos nós com esta CPMI??

Chuva


Estou com frio. Passo minhas mãos no braço e sinto minha pele cheia de carocinhos do pêlo arrepiado. Ouço a chuva lá fora e percebo que no meu trajeto molhado para casa não fui capaz de olhar para o mundo. O guarda-chuva sobre minha cabeça, a mochila nas costas, a bolsa a tira-colo e a pressa do ônibus me levaram pela cidade como se fosse uma segunda-feira qualquer. O feriado parece que não existiu. Com a cabeça aérea percebi que as pessoas continuavam indo e voltando do trabalho, o comércio inteiro estava aberto, os ambulantes na rua. Mas não consegui me ater a detalhes, apenas a essa atmosfera que me rodeava e eu a entendia subjetivamente como um dia comum, uma sensação de “sempre”. Hoje para mim é feriado.
Acabei de chegar em casa e estou tentando lembrar de tudo aquilo que deixo de fazer, por não ter tempo. Coisas para mim. Arrumar gavetas, estudar e escrever meu projeto, lavar roupa, escutar um álbum que baixei, fazer música. Mas nada disso me apraz e vem uma sensação estranha de não saber o que fazer com o meu dia. Sinto apenas o desamparo do frio pelas sandálias molhadas de chuva. Acho que faz algum tempo que não fico sozinha em casa, sempre trabalhando, ou dormindo, ou fora. Sentada no computador, com meu gato dormindo no meu colo, continuo apenas pensando sobre a vida...
Correndo rápida como a gota no vidro da janela.

Sábado, Outubro 10, 2009

Para ouvir:



Olha o cello! Deve ser o Morelenbaum...

Debaixo d'água (Arnaldo Antunes)
Maria Bethânea - álbum Mar de Sofia

Domingo, Outubro 04, 2009

Domingão musical

Olhos de azeviche
(Jaguarão)

Aonde estão
Os olhos de azeviche
Que me olham tanto
Que destruiram minh´alma
Que me roubaram a calma

O meu coraçãopalpita a todo instante
vive a perguntar
se aqueles olhos lindos
não vão me enganar

Eu que vivia feliz, sossegado
Jamais havia pensado no amor
Surgiram então aqueles olhos negros
todo meu sentimento transformou
Consulto meu coração sentimental
Se aguenta amar não lhe faz mal

Aonde estão
Os olhos de azeviche
Que me olham tanto
Que destruiram minh´alma
Que me roubaram a calma

O meu coração
palpita a todo instante
vive a perguntar
se aqueles olhos lindos
não vão me enganar

se aqueles olhos lindos
não vão me enganar...

Mais uma música linda! Esta vem do álbum Raízes do Samba, de 1999, da Clementina de Jesus, mas foi gravada em 1979 e já havia sido lançada no Clementina e Convidados. Mas aí achei também essa coisa maravilhosa, cantada por ela neste mesmo álbum (o Raízes...) e acompanhada por duas violas. Ela é meio sertaneja, meio mineira... Mando aqui também - a música Tava dormindo, as duas para baixar:

Olhos de Azeviche
(Jaguarão)

Tava dormindo
(domínio popular)
Amor Proibido
(Mancéa)

Eu imploro, noite e dia
Ao meu criador
Me faça esquecer aquele grande amor
Que me apareceu, um dia
Quando eu não podia aceitar o seu amor
Porque ela tem seu compromisso
E eu também...
Amor proibido não convém

Atormenta a minha alma
Quando penso neste amor
Acabou-se meu desejo
Nunca houve o ensejo
De dar-te um beijo com fervor

Eu imploro...


Essa versão que está aqui é um pout-pourri, gravado pela Cristina Buarque, no álbum Resgate. Começa com esta linda composição do Mancéia, cantada junto com a Velha Guarda da Portela e emenda com Eu perdi você, do Aniceto, finalizando com Adeus, eu vou partir, do Mijinha. Vale ouvir, está aí para baixar.

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Homem demais pra 50%

Eu ando admirando os velhos. Não... Acho que mais do que os velhos, os antigos. Ser simplesmente velho, não garante que se tenha a calma de quem aprende com sua própria antiguidade. Visto dessa maneira, acho que até é possível ser moço e antigo, basta saber compreender as coisas com a experiência do seu próprio tempo - seja ele 30, 50 ou 85 anos - e saber aproveitar o vivido. Essa calma de que falo é aquela da sabedoria, da sensibilidade sobre aquilo que nos rodeia. E podemos percebê-la em alguém, apenas pelo seu modo de olhar.
No final de semana passado, soube de uma homenagem ao Paulo Vanzolini que seria prestada pelo grupo Lira da Vila, em um boteco ao lado de casa, aqui no centro. Chegando lá, estava formada a roda. Um senhorzinho, calado, um pouco sisudo, acompanhava, pelo canto do olho, o desempenho do bandolim sentado ao seu lado. Do outro, o violão do Ítalo Perón dava a cadência para o choro. Era o Paulo Vanzolini. A emoção de estar ali naquele bar apertadinho, tomado pela música e com a presença dessas pessoas já pairava no ar, ludibriando a todos. A alegria estava estampada nos rostos. Todos se olhavam sorrindo, sem muito acreditar que o velhinho havia recebido um e-mail comunicando a homenagem e, sem nem responder, aparecera no boteco, naquele boteco! Onde bebemos, vez por outra, na saída do trabalho. A noite estava bem bonita. A roda começou a tocar Brasileirinho, o choro do Waldir Azevedo que, no final, cresce incrivelmente no andamento. O pandeiro não acompanhou... Minha mão já coçava e tremia na vontade de não deixar aquele trem todo cair por causa da cozinha e pedi a vez. Sentei-me na roda e entrei na pegada do Brasileirinho. Todos me olharam com alguma confiança, dando cumprimentos de aprovação. Parecia que o pandeiro tocava sozinho, meus dedos ficaram dormentes e minha atenção toda no violão. Tocamos outros choros e alguns sambas-de-breque. Elegi o Ítalo Perón, meu maestro. Ele apenas me olhava, acenando com a cabeça e lá vinha o breque! Fomos assim até que ele se levantou da roda. Fiquei órfã. Olhando minha cara de tristeza, ele logo me disse: “Calma, você vai ver o João, ele é muito bom.” De repente, senta-se na minha frente um senhor, com o violão quase na vertical, solta um sorriso, pisca devagar os dois olhos, como quem diz: “Olá”, ajeita o microfone e começa a cantar "Maria que ninguém Queria", do Paulo Vanzolini, com uma voz incrível! Coisa mais linda! Grave, antiga, cuja imponência contrastava com a humildade do seu semblante. Era o João Macacão. Velha guarda do choro, violonista de primeira!
Eu me vi ali: o único pandeiro da roda, de frente pra ele, esperando o seu sinal. Quando começamos, ele me olhou dando a entrada e deu certo! Ai ainda bem... No decorrer das músicas, eu não tirava os olhos dele e vi que ele apenas me dizia o necessário, calmo, sorrindo tranqüilo. Essa cumplicidade de olhar quase me matou do coração. Levantei-me da roda e passei a vez. Ele depois sumiu na multidão, sem que ao menos eu conseguisse lhe dizer sobre a sua tranqüilidade malandra e de como tudo aquilo foi bom. Mas talvez tenha apenas servido para eu escrever aqui e deixar que essa admiração vá crescendo através de outros, novos, antigos olhares...
A música:
(com João Macacão - Acerto de Contas - disco 1)
A roda:

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Pão de Santo Antônio

“Não sabia qual era o ritual, então fiz na chapa”

Esse é o resumo da minha falta de cultura católica. Há algum tempo atrás, descobri essa pequena igreja de Santo Antônio incrustada na Praça Patriarca. Agora que sou uma moradora da região central, estava passeando na manhã de sábado na companhia da Cuca e do James e fomos até a igreja, onde centenas de mulheres faziam fila para fazer pedidos ao santo. Era dia de Santo Antônio. Entramos na fila e fomos sendo levados pelo fluxo de pessoas com flores, saquinhos de pão, mãos erguidas, olhares de súplica. Sem entender muito a lógica, mas acompanhando o movimento, cheguei a uma bifurcação. Para quem assistiu ao filme A Vida de Brian, um filme genial do Monty Phyton, era a própria cena: “Crucification? Crucification? This way, please. Thank you!” Uma senhora organizava duas filas, perguntando: “Pão? Confissão? Por aqui. Obrigada. Pão? Confissão?” Eu não ia me confessar, acho que nem sei ao certo o que é pecado e o que não é... Então, segui a fila do pão. Chegando ao final, dois rapazes entregavam pão às baciadas, gritando “Amém”. Recebi o pão meio sem jeito e quando percebi já estava fora da igrejinha novamente. Ali mesmo ouvi que podíamos comer um pedaço e tal, mas acabei guardando o meu na bolsa. No domingo de manhã, ao acordar, lembrei do pão e do tempo que não comia um pãozinho francês com manteiga na chapa. Sem muito titubear, lambuzei o lindo pão de Santo Antônio com manteiga (Aviação!) e botei na frigideira! Depois fiquei sabendo qual era a do pão bento: tem que dividir com os amigos, botar no pote de arroz, embrulhar em um saquinho... Tudo isso para ter fortuna ou por ventura arrumar um casamento. Mas como sabemos há anos (vide nossos conterrâneos canibais), nada melhor do que incorporar aquilo que nos dá força ou é sagrado, então eu o devorei!

Espero que não ocorra nenhum efeito colateral no meu espírito! Viu, produção?!!